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~ o espirro e o orgasmo...

"Em um dia ímpar de junho, e estava frio, Douglas leu na página 10 de um jornal de bairro, reservada a uma seção de curiosidades, que o espirro é a segunda sensação física mais forte que pode ser experimentada pelos humanos. A primeira da lista, ainda segundo a seção de curiosidades da página 10 de um jornal de bairro, é o orgasmo. Naquele exato momento, e era cedo, Douglas decidiu vender seu carro, de oito anos de idade mas bem-cuidado, e também abandonar seu emprego, que era o de diagramador de jornais de bairro, para se trancar no quarto de casa, onde morava com o pai, que era corretor de imóveis aposentado e certa vez seduziu uma cliente em uma quitinete com vista para o rio, e vejam vocês, a cliente era casada e acabou por engravidar e bem, onde estávamos mesmo? Ah: no momento em que leu a tal curiosidade sobre espirros e orgasmos Douglas desistiu de qualquer outra coisa na vida, inclusive de verificar a veracidade da informação, que, como todo mundo sabe, poderia ter sido inventada na hora por um redator entediado, que poderia ser grisalho, e não faltam grisalhos e entediados em redações de jornais, que são uma coisa realmente muito desinteressante e que trazem cabelos brancos de montão à cachola e, como eu estava dizendo, Douglas largou tudo e ficou trancado no quarto tentando espirrar e ter um orgasmo ao mesmo tempo. Tentou diversos métodos, ao curso de vários anos, inclusive sem perceber que seu pai havia morrido na sala, sentado na poltrona, enquanto assistia um jogo de futebol da terceira divisão, que a propósito terminou empatado em zero a zero, e ficou ali azedando e apodrecendo e se cobrindo de vermes e fermentando e fedendo e virando um esqueleto de pantufas enquanto Douglas, no quarto, emagrecendo sem parar, tentava ter um orgasmo e espirrar ao mesmo tempo. Ao aspirar exatos 2,78 gramas de pó-de-mico pelas duas narinas, já forradas com rapé mentolado, enquanto mantinha a regularidade a pressão dos movimentos de sua mão direita ao redor do pênis, que ao cabo de tanto esforço já estava como alguns pontos em carne viva e uma cor definitivamente arroxeada, parecida com a de sua prima Alice quando morreu afogada aos sete anos, ao cair no açude fugindo de Douglas, que com nove anos queria apenas tirar a sua calcinha e trocar pela sua cueca, porque sentia muito prazer ao usar calcinhas de algodão com estampas de bichinhos, e a dela tinha vários porquinhos, que eram cor-de-rosa e usavam gravatas-borboleta, e, voltando ao assunto, desta maneira Douglas conseguiu finalmente espirrar e ter um orgasmo ao mesmo tempo. Achou bom, mas ponderou que, para algo a que se dedicou tanto, poderia ter sido melhor, até porque no momento exato não conseguiu decidir se mantinha a concentração no espirro ou no orgasmo ou nos dois ao mesmo tempo e acabou prestando mais atenção nesta dúvida, que permanece, pois em nenhuma das quatrocentas e dezoito vezes subseqüentes em que repetiu a experiência teve calma para chegar a uma decisão sobre o que deveria sentir. (...)"

Trecho de "O Livro das Cousas que Acontecem", de Daniel Pellizzari
http://www.ranchocarne.org/ldm/cousas.html

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